Couro
Economista chama a atenção dos coureiros para mercado turbulento
Publicada em 11/8/2010 - Diego Rosinha/Exclusivo On Line

Igor Morais aponta para deficiências do mercado nacional e internacional
A reunião-almoço da Associação das Indústrias de Curtumes do Rio Grande do Sul (AICSul), ocorrida nesta terça-feira (10 de agosto), teve ares não tão otimistas quanto ao que o setor coureiro tem se acostumado a respirar desde o primeiro semestre de 2010, com exportações crescendo 74% e um mercado interno forte e comprador. O convidado para explanação foi o economista-chefe da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (Fiergs), Igor Morais. Segundo ele, o crescimento desorganizado da economia brasileira pode trazer sérios problemas.
Morais ressaltou que a Ásia deve se consolidar como o principal mercado internacional, devendo ficar com 40% do PIB mundial até 2030. Por outro lado, ele acrescentou que o crescimento médio de 4,9% projetado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) para o Brasil nos próximos cinco anos - sendo 5,6% para a indústria - só será possível com um maior investimento em infraestrutura econômica e social. "O setor público precisa equilibrar as contas e investir com maior acertividade, senão não teremos como crescer", apontou o economista.
O economista alertou, ainda, para um envelhecimento da população mundial dos principais mercados, o que deve diminuir o consumo, mas que os países emergentes devem ocupar lugar de destaque nesse contexto, com a China crescendo o dobro dos países emergentes da América Latina. Morais destacou a China, que consome 35% do seu PIB (contra 50% da média mundial), como um mercado potencial para exportações brasileiras, mas criticou o nível de tecnologia produzido em terras verde-amarelas. Morais disse, ainda, que um país que gasta apenas 1% do PIB em pesquisa e desenvolvimento (metade da média mundial) e está entre os piores qualificados em todos os rankings de educação não tem como crescer a média estabelecida, pois faltaria mão-de-obra qualificada (que já falta) e aumentaria a pressão por salários, aumentando ainda mais o chamado 'Custo Brasil', que engloba taxas de juros exorbitantes, carga tributária excessiva, dificuldades burocráticas para abertura de novos empreendimentos e exportação.
"Também precisaríamos aumentar produção de energia, construindo, pelo menos mais três usinas e meio das do porte de Belo Monte, provocando sérios danos ambientais", disse. Além disso, o problema da falta de investimento na educação é outro impecilho importante ao desenvolvimento, pois não é só a educação básica, mas a educação qualificada que está em níveis muito baixos. O economista salientou que uma das consequências desse modelo de governo é que é Brasil segue com apenas 1% do mercado mundial, sendo o 28º na exportação de manufaturados.
Neste cenário de dificuldades, Morais vê uma grande oportunidade para o Brasil. Destaca que em 2022 o Brasil terá mais pessoas em idade produtiva do que crianças e idosos e que deve se aproveitar desse fato. "Eu torço para que o Brasil cresça 5% até 2015 mas, sinceramente, com todos esses problemas estruturais, não acredito que vá acontecer", concluiu.
NÚMEROS - Antes de iniciar a apresentação, o consultor econômico da AICSul, André Maurício dos Santos divulgou dados do setor coureiro, destacando a recuperação das exportações no primeiro semestre de 2010. Ele ressaltou que a participação do mercado externo nas vendas de couro bovino caiu de 70% para 55% de 2007 para 2009, em razão da crise mundial, voltando a crescer em 2010, estimando que elas devem representar 60% do total produzido neste ano. Por outro lado, Santos acrescentou que o número de exportações de calçados de couro vem perdendo espaço para os sintéticos, o que preocupa o setor. O economista também estimou crescimento menos intenso no segundo semestre, visto que os mercados externos já estarão abastecidos. "Tivemos um crescimento fora do comum no primeiro semestre de 2010, mas foi porque a base de comparação é muito fraca e os mercados estavam desabastecidos", afirmou.